Enquanto o imaginário popular ainda valoriza a estabilidade da carteira assinada, os dados mostram uma realidade diferente nos bolsos dos brasileiros. Atualmente, muitos trabalhadores estão trocando o regime tradicional pela autonomia ou informalidade, e o motivo é financeiro: a renda desse grupo tem crescido em uma velocidade superior à dos profissionais com registro formal.
De acordo com dados do Ipea referentes ao segundo trimestre de 2025, a renda dos trabalhadores autônomos subiu 5,6%em comparação ao ano anterior. Já para os informais, o salto foi ainda maior, chegando a 6,8%. Em contrapartida, quem trabalha sob o regime CLT viu um aumento bem mais tímido, de apenas 2,3%.
Por que os ganhos dos autônomos estão subindo?
Existem diversos fatores que explicam esse fenômeno. Segundo o pesquisador do Ipea, Sandro Sacchet de Carvalho, o fim da pandemia foi um divisor de águas. Como os autônomos foram os mais afetados pelas restrições de isolamento, a retomada econômica permitiu uma recuperação vigorosa de seus ganhos.
Além disso, outros pontos fundamentais impulsionam esses números:
Efeito Farol do Salário Mínimo: Segundo Fernando de Holanda Barbosa, do FGV Ibre, o reajuste anual do salário mínimo serve como uma sinalização de preços para todo o mercado, inclusive para quem não tem carteira.
A "Pejotização": Muitas empresas estão optando por contratar profissionais como MEI para reduzir custos tributários. Como esses profissionais costumam ser mais qualificados, eles elevam a média salarial da categoria de autônomos.
Carga Tributária: João Eloi Olenike, presidente do IBPT, destaca que a rigidez do regime CLT e a alta carga tributária (32,3% do PIB em 2024) limitam a capacidade das empresas de oferecerem reajustes salariais generosos.
Comparativo de Rendimentos
Embora o crescimento da renda dos autônomos seja acelerado, o valor médio recebido ainda apresenta variações importantes conforme o modelo de trabalho. Veja os dados do segundo trimestre de 2025:
Nota: Apesar da média CLT ser maior, os ganhos dos trabalhadores sem carteira atingiram em 2025 o maior nível desde o início da série histórica em 2012.
O papel das plataformas digitais
O avanço da tecnologia e dos aplicativos de serviços também moldou esse novo cenário. Segundo o IBGE, o número de trabalhadores por aplicativos cresceu 25,4% entre 2022 e 2024.
Esses profissionais, chamados de "plataformizados", chegam a ganhar mais no total mensal (média de R$ 2.996 contra R$ 2.875 de quem não usa apps), mas enfrentam uma jornada mais exaustiva. Em média, trabalham 44,8 horas semanais, o que faz com que o valor ganho por hora seja, na verdade, menor do que o de trabalhadores fora das plataformas.
Flexibilidade vs. Segurança
A migração para o trabalho autônomo é motivada pela busca por maior controle do próprio tempo e rendimentos imediatos mais altos. No entanto, especialistas alertam para os riscos de longo prazo.
Sandro Sacchet, do Ipea, lembra que o autônomo abre mão de benefícios como 13º salário, adicional de férias e FGTS. Sem um planejamento financeiro rigoroso e contribuição previdenciária (como a feita via MEI), a conta pode ficar cara na hora da aposentadoria.
Para Humberto Aillon, especialista da Fipecafi, essa tendência de modelos de contratação mais flexíveis deve se consolidar como a nova realidade brasileira, buscando maior eficiência tributária para as empresas e competitividade para setores como o de tecnologia.